Reflexão histórica · Enfermagem & Saúde Pública
Oitenta anos depois do otimismo do pós-guerra, o que a enfermagem aprendeu — e o que ainda insiste em nos escapar? Releitura crítica do artigo de Lois Mattox Miller, publicado originalmente em Hygeia e condensado em Seleções, Tomo VIII, nº 44 (1945).
DIDÁTICOS E ACADÊMICOS
Raquel Magalhães - Enfermeira graduada pela PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS. Mestre em enfermagem pela UFMG, ESPECIALIZADA EM SAÚDE DA FAMÍLIA PELA UFMG.
6/13/202610 min ler


Em 1945, com a poeira da Segunda Guerra Mundial ainda baixando sobre a Europa, a jornalista científica norte-americana Lois Mattox Miller escreveu para a revista Hygeia um texto que hoje soa, ao mesmo tempo, profético e ingênuo. O título era contundente: "Avança a medicina preventiva". Para ela, o maior legado da guerra não estaria nas armas, nem mesmo na penicilina, mas em algo silencioso e coletivo — a possibilidade real de evitar que as pessoas adoecessem. Oito décadas depois, vale retomar aquele otimismo com um olhar mais maduro, sobretudo a partir de quem está, historicamente, na linha de frente dessa prevenção: a Enfermagem.
O sangue como matéria-prima da esperança
Miller abre o artigo celebrando uma descoberta nascida diretamente dos esforços de guerra: os doadores que abasteciam a Cruz Vermelha Americana de plasma, sem saber, forneciam também a base para o que o dr. Edwin Cohn, em Harvard, batizaria de globulina gama — uma fração proteica capaz de prevenir o sarampo em crianças expostas ao contágio. A lógica era elegante e quase poética: como nove em cada dez adultos já haviam tido sarampo, seu sangue carregava anticorpos prontos para serem transferidos.
A reportagem informava, com entusiasmo, que a reserva acumulada "chegará para os próximos cinco anos; depois será comercializada". Hoje sabemos que a história tomou outro rumo: em 1963 Maurice Hilleman e John Enders licenciariam a primeira vacina contra o sarampo, tornando a globulina gama uma estratégia de retaguarda, reservada para pós-exposição em imunodeprimidos e gestantes (CDC, 2024). A profilaxia passiva celebrada por Miller não foi superada por acaso — foi superada pela imunização ativa, mais barata, mais duradoura e logisticamente escalável.


Coqueluche: o teste islandês e a vacina materna
Talvez o trecho mais sensível do texto original seja o dedicado à tosse convulsa. Miller relata que, segundo o Conselho de Química e Farmácia da Sociedade de Ciências Médicas dos Estados Unidos, 85% das crianças adoeciam antes dos sete anos, e a metade antes dos dois. Em 1944, depois de "longos anos de desanimador trabalho", a vacina foi enfim considerada eficaz — em parte graças ao experimento natural conduzido pelo dr. Neils Dungal na Islândia, onde as epidemias ocorriam em ciclos de sete em sete anos, fornecendo uma coorte completamente suscetível. O artigo destaca também uma estratégia que, lida em 2026, parece quase contemporânea: os doutores Samuel Scadron e Philip Cohen, de Nova York, vacinavam gestantes a partir do terceiro mês, gerando proteção transplacentária para o bebê nos seis primeiros meses de vida.
"No curso de cinco anos de observação, esses clínicos não registraram nem um caso da doença em qualquer bebé cuja mãe houvesse sido vacinada assim."
— Lois Mattox Miller, Seleções, 1945
A intuição estava certíssima. Em 2014, o Ministério da Saúde do Brasil incorporou ao calendário a dTpa (difteria, tétano e coqueluche acelular) para gestantes a partir da 20ª semana, ainda que o marco ouro para a administração da vacina fosse 26 semanas, consideram-se a possibilidade de parto prematuro e a oportunidade de vacinar que não pode ser negligenciada — exatamente pelo mesmo princípio descrito em 1945. O resultado: nos países com cobertura adequada, a mortalidade infantil por coqueluche caiu mais de 90% (Organização Pan-Americana da Saúde, 2023). E quem aplica essa vacina, orienta a gestante, registra a dose no cartão e acompanha o puerpério? Em quase 100% dos casos no SUS, é a enfermeira.
Difteria, gripe e a "vigia" que virou rotina
O texto comemora que "quase todas as crianças dos Estados Unidos são hoje praticamente isentas de crupe ou difteria". A frase é inquietante quando lida em 2026: a cobertura vacinal infantil brasileira despencou de patamares superiores a 95% no início da década de 2010 para cifras em torno de 76% (DTP3) em 2021, segundo dados consolidados pela OMS/UNICEF (WUENIC, 2023). Doenças que Miller considerava "praticamente extintas" voltaram a bater à porta. O sarampo, declarado eliminado no Brasil em 2016, perdeu a certificação em 2019. A pólio, ausente desde 1989, voltou a ser risco real (Fiocruz, 2023).
A "vigia da gripe" instalada pelo Exército americano, descrita com ar futurista no artigo original, hoje tem nome técnico: vigilância sentinela de síndrome gripal, operada no Brasil pela rede InfoGripe/Fiocruz e alimentada por dados que enfermeiros coletam, diariamente, em unidades básicas e prontos- socorros. O que era visão de futuro tornou-se rotina cansativa — e subfinanciada.


O DDT, o triunfo amargo e a lição esquecida
Nenhuma passagem do texto envelheceu de forma tão dramática quanto a dedicada ao DDT. Miller descreve seus efeitos como "fantásticos" no combate ao mosquito da malária e ao tifo na Itália. Naquele momento, a humanidade acreditava ter encontrado a bala de prata contra os vetores. Apenas dezessete anos depois, em 1962, Rachel Carson publicaria Primavera Silenciosa e mostraria o reverso da medalha: bioacumulação, colapso de cadeias alimentares, câncer. O DDT seria banido para uso agrícola nos EUA em 1972 e restrito globalmente pela Convenção de Estocolmo (PNUMA, 2001).


Em 1945, o DDT era apresentado como milagre. Trinta anos depois, era um problema ambiental global
A lição é desconfortável: toda tecnologia de saúde pública carrega externalidades. Hoje, repete-se o debate com os inseticidas piretróides, com o uso indiscriminado de antimicrobianos — que a OMS classifica como uma das dez maiores ameaças à saúde global (WHO, 2023) — e com o descarte de resíduos hospitalares. A enfermagem, responsável pelo preparo e administração da maioria dos antimicrobianos prescritos no ambiente hospitalar, ocupa posição estratégica nos programas de stewardship, ou gerenciamento do uso racional de antimicrobianos (ANVISA, RDC 222/2018).
Ar, luz e a primeira intuição sobre aerossóis
Há um trecho do texto de 1945 que ganha contornos quase comoventes depois da pandemia de COVID-19. Miller descreve experimentos com coelhos saudáveis e tuberculosos em gaiolas contíguas: na primeira rodada, sem radiação ultravioleta, todos adoeceram. Na segunda, com a atmosfera tratada por UV, nenhum. A conclusão da autora — "é possível que as radiações ultravioletas ainda venham a impedir o contágio da tuberculose humana pela atmosfera" — antecipa em décadas o debate sobre transmissão por aerossóis, que só seria oficialmente reconhecido pela OMS para a SARS-CoV-2 em abril de 2021 (WHO, 2021).
A pesquisa contemporânea sobre UV-C far (222 nm), considerada segura para a pele humana, retoma exatamente o caminho que Miller intuiu. Estudos publicados na Scientific Reports (Buonanno et al., 2022) mostram que esse comprimento de onda pode inativar mais de 98% dos patógenos aéreos em ambientes fechados. Oitenta anos para que uma hipótese feita com coelhos ganhasse status de tecnologia hospitalar.
A Enfermagem como sujeito (invisível) dessa história
Há um silêncio eloquente no artigo de 1945: o nome dos enfermeiros não aparece nenhuma vez. Miller cita Cohn, Dungal, Scadron, Cohen — todos médicos e pesquisadores homens. E, no entanto, nada do que ela descreve teria acontecido sem enfermagem: foram enfermeiras que colheram o sangue doado à Cruz Vermelha, que aplicaram a globulina gama nas crianças, que vacinaram as 5.000 crianças islandesas, que mantiveram em funcionamento as "vigias da gripe", que pulverizaram DDT em zonas de combate, que organizaram as cadeias de frio improvisadas no Pacífico.
Essa invisibilidade não é detalhe estilístico — é estrutural. Como mostra a historiografia recente (Mott & Tsunechiro, 2002; Nursing History Review, 2020), a profissionalização da enfermagem no século XX foi profundamente marcada pela divisão sexual do trabalho científico: aos homens, o crédito da descoberta; às mulheres, a execução, o cuidado, o seguimento. Quando Miller escreve que a vacina contra a coqueluche "foi enfim conseguida", ela apaga as milhares de horas de observação clínica, registro, contenção de criança chorando e conversa com mães aflitas que sustentaram cada um daqueles ensaios.
A medicina preventiva avança porque alguém, todos os dias, abre a geladeira de vacinas às sete da manhã, confere a temperatura, prepara a seringa e olha nos olhos de quem tem medo de agulha.
No Brasil, o Programa Nacional de Imunizações (PNI), criado em 1973 e reconhecido pela OMS como uma das maiores políticas públicas de saúde do mundo, é executado em mais de 38 mil salas de vacina — quase todas sob responsabilidade técnica direta de enfermeiros (em sua maioria compostos por profissionais do sexo feminino) (Ministério da Saúde, 2023; COFEN, Resolução nº 736/2024) e um exército silencioso de duas categorias subvalorizadas, a dos Técnicos e Auxiliares de Enfermagem, sem as quais, seria impossível realizarem as centenas de milhares de doses aplicadas diariamente(só no Brasil). O artigo de 1945 sonhava com vacinas distribuídas "por intermédio das escolas, das empresas comerciais e industriais, e dos serviços locais de saúde". O SUS realizou esse sonho — e a enfermagem é o seu músculo.
O que mudou, o que não mudou, o que regrediu


Reler Miller em 2026 é um exercício de humildade dupla. De um lado, há razão para celebrar: a varíola foi erradicada (1980), a pólio está perto disso, surgiram vacinas de mRNA capazes de ser desenhadas em semanas, e a expectativa de vida global passou de 46 anos em 1950 para 73 em 2024 (Banco Mundial, 2024). Boa parte desse ganho vem do que Miller chamou de "triunfal progresso na prevenção das doenças".
De outro lado, o otimismo de 1945 subestimou três adversários que hoje conhecemos bem:
A desinformação. Miller não previu que, em 2026, grupos organizados nas redes sociais conseguiriam reduzir a cobertura vacinal de países inteiros. A enfermagem, por estar no atendimento direto, virou tradutora e mediadora dessa luta.
A insegurança sobre a eficácica das vacinas- Recentemente a vacina contra dengue, que havia sido liberada para aplicação foi, temporariamente descontinuada devido a efeitos com sinais de alerta que não tinham sido observado no estudo clínico.
A iniquidade. O artigo fala de globulina gama "ministrada gratuitamente, por toda parte". Hoje, 14,3 milhões de crianças no mundo permanecem zero-dose, sem nenhuma vacina (UNICEF, 2023), e quase todas vivem em territórios pobres.
O colapso climático. O DDT desapareceu, mas o mosquito voltou — e ampliou seu território. A dengue bateu recorde no Brasil em 2024, com mais de 6 milhões de casos prováveis (Ministério da Saúde, 2024). A prevenção que Miller imaginava química é hoje, necessariamente, também ecológica.
Uma carta de 1945 para a enfermagem de 2026
Se pudéssemos escrever de volta para Lois Mattox Miller, talvez disséssemos: você acertou no essencial. A medicina preventiva avançou, sim — mas não porque a ciência sozinha foi suficiente, ela avançou porque, atrás de cada vacina nova, houve uma sala de vacina aberta às sete da manhã nas periferias, nas grandes capitais, em cada salinha dos lugares mais isolados e até nos barcos carregados de caixas de isopor que alcançam as remotas aldeias indígenas. Houve um enfermeiro fazendo busca ativa de faltosos. Houve uma técnica de enfermagem explicando, pela quinta vez no dia, que a vacina contra HPV não causa esterilidade...
A penicilina e o plasma foram triunfos de bancada. A imunização coletiva é, e sempre foi, um triunfo de campo — e o campo tem jaleco branco, sapato confortável e, quase sempre, é mulher. Honrar o legado do artigo de 1945 não é repetir seu entusiasmo, é fortalecer quem o sustenta na prática: financiar o SUS, valorizar salarialmente a enfermagem, combater a desinformação com transparência e reconhecer, enfim, que prevenir é o ato mais sofisticado de toda a medicina.
Oitenta anos depois, o desafio não é descobrir a próxima globulina gama. É garantir que, quando ela chegar, que haja uma enfermeira treinada, bem paga e respeitada para coordenar toda uma estrutura que garanta a segurança dos imunobiológicos e a competência de seu pequeno exército de técnicos a aplicá-los — para que uma mãe, um familiar, e cada indivíduo possa acreditar nela o suficiente para estender o braço de uma criança.


Fontes consultadas
MILLER, Lois Mattox. Avança a medicina preventiva. In: Seleções do Reader's Digest, Tomo VIII, nº 44. Condensado da revista Hygeia, 1945. [Texto-fonte desta reflexão.]
CARSON, Rachel. Silent Spring. Boston: Houghton Mifflin, 1962.
CDC — Centers for Disease Control and Prevention. Measles (Rubeola): For Healthcare Providers, 2024. Disponível em: cdc.gov/measles.
WHO/UNICEF. Estimates of National Immunization Coverage (WUENIC), edição 2023.
ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Imunização nas Américas: relatório regional, 2023.
FIOCRUZ. Boletim Observatório Covid-19 e InfoGripe, 2023
MINISTÉRIO DA SAÚDE (Brasil). Programa Nacional de Imunizações: 50 anos. Brasília, 2023; e Boletim epidemiológico de arboviroses, 2024.
ANVISA. RDC nº 222/2018 — Gerenciamento dos resíduos de serviços de saúde.
COFEN. Resolução nº 736/2024 — sobre a atuação da equipe de enfermagem em sala de vacina.
BUONANNO, M. et al. Far-UVC light efficiently inactivates an airborne pathogen in a room-sized chamber. Scientific Reports, v. 12, 2022.
MOTT, M. L.; TSUNECHIRO, M. A. Os cursos de enfermagem e a formação feminina no Brasil. Cadernos Pagu, 2002.
WHO. Antimicrobial resistance: global report, 2023; e Roadmap on airborne transmission of SARS-CoV-2, 2021.
UNICEF. The State of the World's Children: zero-dose communities, 2023.
PNUMA. Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes, 2001.
Autora: Raquel Magalhães Rodrigues e Silva
Email: raquelmrodrigues16@gmail.com
Enfermeira graduada pela PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS
Mestre em enfermagem pela UFMG,
ESPECIALIZADA EM SAÚDE DA FAMÍLIA PELA UFMG.
TEMPO DE EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL: 36 ANOS
Assistência direta e supervisão de enfermagem em Clínica médica, oncologia, Intensivismo adulto e pediátrico, obstetrícia e pediatria, docência em enfermagem em cursos técnicos, graduação e especialização em enfermagem. Nos últimos 21 anos atuando como enfermeira em Programa Saúde da Família em Belo Horizonte .


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