Do Nazismo aos Algoritmos: o alerta de 1945 sobre manipulação, polarização e desinformação na era da Inteligência Artificial

Uma releitura, 81 anos depois, de “O Nazismo não tem fronteiras”, de Malcolm W. Bingay. Continue lendo....

BIBLIOTECA DA MEMÓRIALANÇAMENTOS

Oswaldo Neves (Snow) Continue lendo...

9/24/202621 min ler

Em 1945, quando as feridas da Segunda Guerra Mundial ainda estavam abertas, a revista Seleções do Reader’s Digest levou aos seus leitores um texto inquietante.

Seu título era: “O Nazismo não tem fronteiras”

O artigo havia sido condensado do Detroit Free Press e era assinado pelo jornalista Malcolm W. Bingay.

Nas páginas 19 e 20 daquela edição, Bingay não procurava apenas explicar o que havia acontecido na Alemanha. Fazia algo mais desconfortável. Olhava para seu próprio país e depois de testemunhar pessoalmente as evidências das atrocidades nazistas na Europa, Bingay recusou a ideia reconfortante de que aquele horror pertencia exclusivamente aos alemães.

Ao contrário. Pensou nos Estados Unidos, na corrupção política, no racismo, na intolerância religiosa, nos líderes que exploravam o medo e o ressentimento, nos interesses econômicos que se acomodavam ao poder e pensou, principalmente, nas pessoas que abandonavam a responsabilidade individual alegando que apenas faziam aquilo que lhes era ordenado. Mais de oito décadas depois, o Meu Sebo retorna àquelas páginas e não para afirmar que o mundo de 2026 é igual ao de 1945. Não, não é, mas para fazer uma pergunta muito mais interessante:o que aconteceu com os mecanismos humanos e sociais que Bingay identificou em 1945?

Eles desapareceram ou encontraram novas ferramentas?

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1. Malcolm W. Bingay: o jornalista que foi à Alemanha e voltou olhando para os Estados Unidos

Malcolm Wallace Bingay nasceu em 16 de dezembro de 1884, em Sandwich, Ontário, Canadá, e cresceu em Detroit, para onde sua família se mudou ainda em sua infância. Sem concluir o ensino médio ou formação universitária, encontrou no jornalismo sua verdadeira vocação. Começou em funções modestas na imprensa e, ainda jovem, destacou-se no Detroit News, especialmente como repórter e editor esportivo. Mais tarde, tornou-se conhecido por suas colunas de estilo direto, combativo e provocador. Em 1930, passou a trabalhar no Detroit Free Press, onde construiu uma longa carreira e chegou ao cargo de diretor editorial, função que ocupava em 1945.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, Bingay integrou um grupo de jornalistas norte-americanos levado à Europa para conhecer de perto as evidências dos crimes do regime nazista e as condições encontradas nos campos. Sua experiência foi particularmente marcante porque ele próprio admitia ter viajado com certo ceticismo, influenciado pelas lembranças da propaganda exagerada utilizada durante a Primeira Guerra Mundial. Guardem esta informação. O que presenciou na Europa, porém, alterou profundamente sua percepção. Pouco depois de retornar aos Estados Unidos, em 16 de maio de 1945, apresentou ao Economic Club of Detroit a conferência “What I Saw in Europe — What We Must Do About It”, relatando aquilo que havia testemunhado. Bingay continuou escrevendo até 1953 e deixou uma trajetória marcada tanto pelo jornalismo político e esportivo quanto por seus relatos sobre a realidade encontrada na Europa do pós-guerra.

2. “Fazíamos o que nos ordenavam”

Entre todas as passagens do artigo de 1945, poucas permanecem tão perturbadoras quanto esta:

“Fazíamos o que nos ordenavam.” Segundo Bingay, essa era a justificativa que encontrava repetidamente.

Industriais, Negociantes, operários, comerciantes, fazendeiros e pessoas comuns.

Muitos diziam que não concordavam com aquilo que havia acontecido, mas alegavam medo, necessidade, conveniência ou simples obediência. A responsabilidade parecia sempre pertencer a outra pessoa e ai que Bingay percebeu algo fundamental: um sistema autoritário não depende exclusivamente de seus líderes.

Pasmem: depende também daqueles que obedecem. Dos que se calam. Dos que lucram. Dos que preferem não saber. Dos que consideram mais confortável acompanhar a maioria. E daqueles que passam a considerar normal aquilo que, pouco tempo antes, seria moralmente inaceitável.

O United States Holocaust Memorial Museum, em Washington, mostra que a propaganda nazista foi utilizada para conquistar apoio de milhões de alemães, inicialmente dentro de uma democracia e posteriormente em uma ditadura. A instituição destaca ainda que a propaganda ajudou a criar um ambiente de indiferença e aceitação da perseguição. Essa talvez seja uma das primeiras grandes conexões entre 1945 e 2026.

Os meios mudaram.

A vulnerabilidade humana à influência coletiva não desapareceu.

3. O nazismo não começou pelos campos de extermínio

Quando observamos o nazismo retrospectivamente existe o risco de enxergarmos apenas seu estágio final.

Auschwitz. Dachau. Buchenwald. Guerra. Perseguição. Genocídio.

Mas uma sociedade não acorda numa manhã e chega imediatamente a esse ponto.

Concordam comigo que existe um processo. A Alemanha possuía instituições. Possuía jornais. Possuía partidos políticos. Possuía eleições e possuía uma Constituição que garantia direitos.

O próprio Museu do Holocausto dos Estados Unidos recorda que, quando os nazistas chegaram ao poder em 1933, a Constituição alemã garantia liberdade de expressão e liberdade de imprensa. Esses direitos foram progressivamente destruídos por leis, decretos, censura e controle dos meios de comunicação.

É justamente aí que a História se torna útil. Não para afirmar que toda crise democrática terminará em nazismo. Mas para mostrar que instituições podem enfraquecer gradualmente. Interessante, não é?

4. Primeiro, constrói-se um inimigo

Vejamos: um dos instrumentos mais eficientes da propaganda nazista foi a construção do inimigo.

O Museu do Holocausto dos Estados Unidos mantém uma seção especialmente dedicada a esse mecanismo histórico: “Defining the Enemy” — Definindo o Inimigo.

A propaganda apresentava determinados grupos como responsáveis pelos problemas da sociedade.

Judeus foram o principal alvo, mas não os únicos. Ciganos, opositores políticos, homossexuais, pessoas com deficiências e outros grupos também foram perseguidos.

Esse mecanismo merece atenção porque possui uma característica perigosa: transformar pessoas em categorias.

Quando isso acontece, o indivíduo começa a desaparecer.

Ele deixa de ser João, Maria, Pedro ou Ana.

Passa a ser apenas:

“o comunista”.

“o fascista”.

“o imigrante”.

“o judeu”.

“o muçulmano”.

“o estrangeiro”.

“o inimigo”.

A democracia começa a enfrentar problemas graves quando o adversário deixa de ser alguém com quem discordamos e passa a ser alguém cuja existência consideramos ilegítima.

5. De Goebbels ao algoritmo: o que realmente mudou?

Em 1945, propaganda exigia uma estrutura relativamente pesada.

Rádio, Jornais, Cinema, Cartazes, Comícios, Impressoras e Distribuição.

O regime nazista criou um Ministério da Propaganda dirigido por Joseph Goebbels e procurou controlar jornais, livros, rádio, cinema, teatro, música e materiais educacionais.

Em 2026, existe algo que Goebbels jamais poderia imaginar: um aparelho de comunicação individual no bolso de bilhões de pessoas.

O smartphone mudou radicalmente a arquitetura da informação.

Qualquer indivíduo pode produzir uma mensagem.

Qualquer indivíduo pode distribuí-la.

Uma informação pode atravessar o planeta em segundos.

Isso representa uma extraordinária democratização da comunicação.

Mas existe outra face.

Uma mentira também pode atravessar o planeta em segundos.

6. O algoritmo não precisa ter ideologia

Essa talvez seja uma das diferenças mais interessantes entre a propaganda de 1945 e o ambiente digital de 2026.

Um algoritmo não precisa odiar ninguém.

Ele pode simplesmente descobrir que determinados conteúdos mantêm nossa atenção.

Raiva gera atenção.

Medo gera atenção.

Escândalo gera atenção.

Conflito gera atenção.

Indignação gera atenção.

E atenção possui valor econômico.

Por isso, uma pergunta tornou-se indispensável:

por que estou vendo este conteúdo?

Talvez ninguém tenha ordenado especificamente que determinada pessoa o recebesse.

O sistema simplesmente aprendeu que ela provavelmente reagiria.

Essa é uma mudança histórica.

A propaganda de massa procurava encontrar um público.

Hoje, determinados sistemas conseguem encontrar cada indivíduo.

7. Inteligência Artificial: quando “eu vi” deixa de ser prova

Durante séculos, uma imagem possuiu enorme poder de convencimento.

“Eu vi.”

“Está fotografado.”

“Existe um vídeo.”

A Inteligência Artificial abalou essa certeza.

Hoje é possível produzir artificialmente:

fotografias;

vozes;

discursos;

documentos;

vídeos;

entrevistas;

e até acontecimentos que jamais existiram.

A questão deixa de ser apenas:

“Essa interpretação é verdadeira?”

E passa a ser:

“Isso aconteceu?”

Essa transformação torna a educação para a informação ainda mais importante.

8. Estados Unidos: o alerta de Bingay continua dentro de casa

Talvez o aspecto mais admirável do texto original seja justamente Bingay ter recusado a ideia de que o extremismo era um problema exclusivamente estrangeiro.

Na Alemanha destruída, ele pensou nos Estados Unidos.

Citava Huey Long.

Frank Hague.

Al Capone.

Corrupção política.

Líderes trabalhistas corruptos.

Ódios raciais e religiosos.

E mencionava expressamente a Ku Klux Klan.

Oito décadas depois, organizações civis norte-americanas continuam acompanhando movimentos extremistas.

O Southern Poverty Law Center (SPLC) informou que identificou 1.371 grupos de ódio e grupos extremistas antigoverno nos Estados Unidos em 2024.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos possuem uma das maiores estruturas mundiais de preservação da memória do Holocausto.

O United States Holocaust Memorial Museum, em Washington, reúne documentos, testemunhos, fotografias e pesquisas sobre o processo que conduziu da discriminação ao genocídio.

Há aqui uma lição profundamente coerente com Bingay:

democracia não significa acreditar que “isso jamais aconteceria conosco”.

Significa construir instituições capazes de impedir que aconteça.

9. Reino Unido: onde termina a divergência e começa o extremismo?

Caminhando um pouco mais para os dias atuais, o Reino Unido enfrenta uma questão particularmente importante.

Como combater o extremismo sem transformar opiniões divergentes em extremismo?

Em 2024, o governo britânico publicou uma nova definição oficial.

Segundo o documento, extremismo envolve promover uma ideologia baseada em violência, ódio ou intolerância destinada, entre outras possibilidades, a destruir direitos fundamentais ou enfraquecer e substituir a democracia parlamentar britânica.

Mas existe uma ressalva essencial no próprio documento:

o exercício legal da liberdade de pensamento, expressão, associação, debate, protesto e campanha por mudanças na legislação não constitui extremismo.

Essa distinção é fundamental.

Uma democracia precisa conseguir sustentar simultaneamente duas ideias:

combater movimentos que desejam destruir direitos democráticos e proteger o direito das pessoas de criticar o próprio governo.

Se toda divergência se transforma em extremismo, a defesa da democracia pode paradoxalmente enfraquecer a própria democracia.

10. França: a batalha pela informação já é questão de Estado

Já a França oferece talvez um dos exemplos mais claros de como o problema mudou desde 1945.

O país criou o VIGINUM, serviço ligado ao Secretariado-Geral da Defesa e Segurança Nacional, cuja missão é detectar e caracterizar operações estrangeiras de interferência digital que atinjam o debate público francês.

Em fevereiro de 2026, a França adotou sua primeira Estratégia Nacional de Combate às Manipulações da Informação de Origem Estrangeira para 2026–2030.

Entre seus eixos estão:

resiliência da sociedade;

responsabilização das plataformas;

Inteligência Artificial generativa;

detecção de operações de influência;

cooperação internacional.

E não estamos falando apenas de um risco teórico.

Nas eleições municipais francesas de março de 2026, o VIGINUM informou ter identificado quatro operações de interferência digital estrangeira.

A propaganda atravessou fronteiras.

Bingay dificilmente poderia imaginar uma demonstração tão literal do título que escreveu em 1945.

11. Alemanha: conhecer o passado não significa estar imunizado contra ele

Caro leitor: nenhuma sociedade investiu tanto na confrontação pública de seu passado nazista quanto a Alemanha contemporânea.

Memoriais, museus, educação, documentação, legislação e pesquisa histórica. Entretanto, existe uma lição importante: memória não é vacina permanente.

O Bundesamt für Verfassungsschutz, órgão federal alemão de proteção da Constituição, continua tratando o extremismo de direita como uma ameaça à ordem democrática. Na sociedade civil alemã, a RIAS mantém um sistema de documentação de incidentes antissemitas.

Isso não significa que a Alemanha de 2026 esteja repetindo a Alemanha nazista.

Essa seria uma conclusão historicamente irresponsável. Significa algo diferente:

nenhuma democracia pode terceirizar para o passado a responsabilidade de defender seu presente.

12. Argentina: quando o preconceito encontra as redes sociais

A Argentina é um capítulo interessante, pois possui uma relação histórica particularmente complexa com as consequências da Segunda Guerra Mundial.

O país recebeu sobreviventes do Holocausto, mas também ficou marcado pela chegada de criminosos nazistas fugitivos da Europa.

Décadas depois, a comunidade judaica argentina seria atingida pelos atentados contra a Embaixada de Israel, em 1992, e contra a AMIA, em 1994.

Hoje outro fenômeno chama atenção.

A DAIA — Delegación de Asociaciones Israelitas Argentinas registrou 687 denúncias de antissemitismo em 2024, crescimento de 15% em relação ao ano anterior.

A entidade chama atenção especialmente para o ambiente virtual como espaço privilegiado para a propagação de manifestações antissemitas. Há uma frase que resume a transformação:

o preconceito que em 1945 precisava encontrar um palanque hoje precisa apenas encontrar uma conexão.

13. Brasil: o desafio da desinformação sem transformar divergência em crime

No Brasil, a discussão ganha importância adicional em 2026, ano de eleições gerais.

A Inteligência Artificial torna possível produzir em poucos minutos materiais que anteriormente exigiriam equipes profissionais.

Isso aumenta a necessidade de distinguir: sátira; opinião; erro; informação falsa; manipulação deliberada; conteúdo sintético e material produzido com intenção de enganar.

Pensando nisto, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabeleceu regras específicas para propaganda eleitoral e para determinadas utilizações de conteúdo produzido ou manipulado por Inteligência Artificial.

Na sociedade civil, a SaferNet Brasil, organização dedicada à promoção dos direitos humanos no ambiente digital, trabalha com educação, orientação e denúncias relacionadas a violações na internet. Mas existe um cuidado indispensável.

Combater desinformação não pode significar criminalizar opinião.

Uma democracia pressupõe discordância.

Pressupõe oposição.

Pressupõe crítica ao governo.

Pressupõe imprensa livre.

Pressupõe inclusive o direito de sustentar opiniões que a maioria considera equivocadas.

O desafio está em preservar esse espaço enquanto a tecnologia torna cada vez mais sofisticadas as formas deliberadas de manipulação.

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14. “Fazíamos o que nos ordenavam” — versão 2026

Talvez a frase que Bingay ouviu em 1945 tenha adquirido novas versões:

“Eu só compartilhei.”

“Todo mundo estava dizendo.”

“Recebi no grupo.”

“Apareceu para mim.”

“O vídeo parecia verdadeiro.”

“A Inteligência Artificial fez.”

“O algoritmo recomendou.”

Existe algo em comum entre todas elas.

A tentativa de deslocar a responsabilidade. Mas tecnologia não aboliu responsabilidade humana.

Ao contrário. Quanto mais poderosas se tornam nossas ferramentas, maior precisa ser nossa capacidade de questioná-las.

Quem publicou?

Qual é a fonte?

Existe confirmação independente?

A fotografia é verdadeira?

O vídeo está completo?

A declaração realmente ocorreu?

Quem se beneficia da minha indignação?

Por que esse conteúdo chegou até mim?

Talvez essas sejam algumas das perguntas democráticas fundamentais do século XXI.

15. O que não devemos fazer com a História

Existe também um perigo na direção contrária.

Chamar qualquer adversário político de “nazista”.

Isso banaliza a História.

Nazismo possui significado histórico específico.

Produziu uma ditadura racial.

Eliminou liberdades.

Perseguiu adversários.

Promoveu guerra de conquista.

Institucionalizou perseguições raciais.

E produziu genocídio.

Portanto:

nem todo autoritarismo é nazismo.

Nem todo populismo é fascismo.

Nem toda mentira é propaganda totalitária.

Nem toda decisão governamental equivocada representa

uma ditadura. Nem todo político de quem discordamos é Hitler e a comparação histórica precisa ser feita com responsabilidade.

Mas existe um erro igualmente perigoso: acreditar que, por serem diferentes, passado e presente jamais podem ser comparados.

Podem.

E devem.

Desde que comparemos mecanismos, e não apenas rótulos.

Desumanização.

Intolerância.

Culto à personalidade.

Construção de inimigos.

Violência política.

Ataques sistemáticos às instituições.

Supressão da liberdade.

Normalização da mentira.

Obediência sem reflexão.

Esses fenômenos pertencem ao campo de estudo da História, o que deixaremos para os historiadores.

O artigo que inspirou o nosso trabalho

16. A democracia pode morrer aos poucos?

Talvez esta seja a pergunta central deixada pelo artigo de 1945.

Bingay escreveu que a história da ascensão nazista era a história de um povo que, obcecado pela segurança, havia perdido seu sentido moral.

Segurança é uma palavra poderosa.

Segurança econômica.

Segurança física.

Segurança nacional.

Segurança cultural.

Segurança política.

Pessoas com medo aceitam coisas que talvez recusassem em tempos tranquilos.

Por isso, quando alguém oferece segurança em troca de liberdade, uma democracia precisa prestar atenção.

Mas também precisamos evitar conclusões simplistas.

Nem toda política de segurança é autoritária.

Nem toda medida excepcional conduz à ditadura.

O perigo está na normalização.

Uma exceção.

Depois outra.

Um adversário que deixa de possuir direitos.

Uma instituição que deixa de merecer respeito.

Um jornalista que passa a ser inimigo.

Uma eleição cuja legitimidade somente é reconhecida quando nosso candidato vence.

Uma mentira aceita porque beneficia “nosso lado”.

Separadamente, cada acontecimento pode parecer pequeno.

Somados, podem transformar uma sociedade.

17. O maior perigo pode começar quando deixamos de conversar

Há uma etapa ainda anterior à violência. A incapacidade de conversar. Primeiro: “Ele está errado.”

Depois: “Ele é ignorante.” Depois: “Ele é mau.” Depois: “Ele é nosso inimigo.”

Quando o adversário deixa de ser cidadão e se transforma em inimigo, coisas antes moralmente inadmissíveis começam a parecer justificáveis.

E esse mecanismo não pertence exclusivamente à direita. Nem à esquerda, mas à natureza humana.

Por isso democracia exige muito mais do que eleições. Exige convivência. Exige aceitar derrotas. Exige limites para quem vence. Exige direitos para quem perde. Exige instituições que sobrevivam aos governantes. E exige cidadãos capazes de distinguir: convicção de fanatismo.

18. De 1945 a 2026: quase tudo mudou — e algumas coisas não

Em 81 anos, o mundo de Bingay desapareceu.

Vieram a televisão.

A Guerra Fria.

A corrida espacial.

As ditaduras latino-americanas.

As redemocratizações.

A queda do Muro de Berlim.

A internet.

O Google.

As redes sociais.

O smartphone.

Os algoritmos.

A Inteligência Artificial.

A humanidade desenvolveu tecnologias que um jornalista de 1945 provavelmente consideraria ficção científica.

Mas medo ainda existe.

Ambição ainda existe.

Preconceito ainda existe.

Conformismo ainda existe.

A necessidade de pertencer a grupos ainda existe.

A tentação de culpar alguém pelos nossos problemas ainda existe.

E continuamos muito propensos a acreditar em informações que confirmam aquilo em que já desejávamos acreditar.

A tecnologia não inventou essas fraquezas.

Apenas lhes entregou ferramentas extraordinariamente poderosas.

19. Uma revista antiga não é apenas papel amarelado

E chegamos, finalmente, à razão de esta história estar sendo contada pelo Meu Sebo.

Uma revista publicada em 1945 poderia permanecer esquecida.

Fechada.

Guardada em uma estante.

Suas páginas poderiam envelhecer silenciosamente.

Mas então alguém abre essa revista 81 anos depois.

E Malcolm W. Bingay volta a falar.

Sua voz atravessa:

1945,

a Guerra Fria,

a televisão,

o Muro de Berlim,

a internet,

as redes sociais,

os algoritmos,

e chega a 2026.

Isso revela algo extraordinário sobre livros e revistas antigas.

Eles são máquinas do tempo feitas de papel.

Permitem ouvir aquilo que uma geração dizia quando ainda não sabia como sua própria história terminaria.

Nós sabemos o que aconteceu depois de 1945.

Bingay não sabia o que aconteceria depois de escrever aquelas páginas.

Da mesma forma, em 2026, também não sabemos o que um leitor de 2100 pensará quando examinar nossos jornais, nossos vídeos e nossas redes sociais.

É justamente por isso que preservar memória importa.

20. Conclusão: o alerta permanece

Malcolm W. Bingay escreveu em 1945 olhando para um mundo devastado pela guerra, pela intolerância e pela obediência transformada em virtude.

Oitenta e um anos depois, o cenário é outro.

As democracias são mais estruturadas.

As instituições internacionais são mais numerosas.

A memória do Holocausto está melhor documentada

A sociedade possui acesso incomparavelmente maior à informação.

Mas também surgiram novas formas de influência.

A propaganda deixou de depender apenas de governos, jornais, rádios ou grandes organizações.

Hoje ela pode ser produzida por indivíduos, grupos anônimos, empresas, redes coordenadas ou sistemas automatizados.

Pode viajar por plataformas digitais.

Pode ser impulsionada por algoritmos.

Pode explorar medo, indignação e ressentimento.

E pode ser fabricada com Inteligência Artificial.

Isso não significa que estejamos repetindo 1933 ou 1945.

A História não se reproduz dessa maneira.

Mas significa que algumas fragilidades humanas permanecem reconhecíveis.

O desejo de segurança.

A necessidade de pertencer a um grupo.

A facilidade de transformar adversários em inimigos.

A disposição de aceitar uma mentira quando ela favorece nossas convicções.

A tendência de transferir responsabilidade para líderes, instituições, sistemas ou tecnologias.

Talvez seja justamente aí que esteja a maior contribuição de Bingay.

Seu texto não nos convida a procurar nazistas em todo lugar.

Convida-nos a observar os mecanismos que permitem que uma sociedade deixe de perceber o perigo quando ele ainda parece pequeno.

A intolerância raramente começa apresentando-se como intolerância.

A censura raramente se apresenta como censura.

A manipulação geralmente se apresenta como informação.

O autoritarismo frequentemente se apresenta como solução.

E a perda de liberdade pode ocorrer enquanto muitos acreditam estar apenas escolhendo segurança, estabilidade ou proteção.

Por isso, a principal defesa de uma democracia talvez não esteja apenas em suas leis.

Está também na consciência de seus cidadãos.

Na capacidade de desconfiar.

De verificar.

De ouvir.

De discordar sem desumanizar.

De reconhecer erros do próprio grupo.

E, sobretudo, de recusar a ideia confortável de que somente os outros podem ser manipulados.

Em 1945, Bingay olhou para uma Alemanha destruída e pensou nos Estados Unidos.

Em 2026, talvez o exercício mais honesto seja semelhante.

Cada sociedade precisa olhar para si mesma.

Cada grupo político precisa examinar seus próprios excessos.

Cada cidadão precisa perguntar até que ponto suas convicções foram formadas por fatos, por medo, por ressentimento ou simplesmente pela repetição.

A tecnologia continuará evoluindo.

Os algoritmos serão mais sofisticados.

A Inteligência Artificial será cada vez mais convincente.

Mas nenhuma tecnologia pode substituir completamente uma escolha humana fundamental:

pensar antes de obedecer.

verificar antes de acreditar.

compreender antes de odiar.

É nesse ponto que o artigo de Malcolm W. Bingay deixa de ser apenas um documento de 1945.

Ele se transforma em um alerta dirigido também a nós.

21. Por que este é o Artigo do Mês de Setembro do Meu Sebo

“Do Nazismo aos Algoritmos” foi escolhido como Artigo do Mês de Setembro de 2026 do Meu Sebo porque representa exatamente aquilo que desejamos fazer com nosso acervo.

Não queremos apenas guardar revistas antigas. Queremos fazê-las conversar com o presente.

O exemplar de 1945 que inspirou esta releitura deixou de ser apenas objeto de coleção. Transformou-se novamente em documento vivo. Bingay escreveu sobre nazismo. Mas também escreveu sobre medo.

Corrupção. Conformismo. Racismo. Intolerância. Segurança. Liberdade. Responsabilidade. E consciência.

Oito décadas depois, acrescentamos novas palavras à conversa:

  • algoritmos.

  • redes sociais.

  • desinformação.

  • deepfakes.

  • Inteligência Artificial.

As palavras mudaram, mas a pergunta fundamental permanece: Até onde estamos dispostos a entregar nossa consciência para que alguém — ou alguma tecnologia — pense por nós?

Talvez essa seja a verdadeira razão pela qual vale a pena conservar uma revista de 1945.

Não apenas para saber o que aconteceu, mas para compreender aquilo que pode acontecer.

E talvez a passagem mais importante que Malcolm W. Bingay deixou naquela antiga edição de Seleções não seja uma acusação contra a Alemanha. Seja sua disposição de olhar para os erros encontrados em outro país e perguntar se as sementes desses mesmos erros poderiam existir dentro de sua própria sociedade. Esse exercício continua necessário:

  • Nos Estados Unidos.

  • No Reino Unido.

  • Na França.

  • Na Alemanha.

  • Na Argentina.

  • No Brasil.

Em qualquer democracia, porque a tecnologia muda, os governos passam, os partidos desaparecem e as gerações são substituídas.

Porém, a liberdade continua dependendo de cidadãos capazes de pensar antes de obedecer — e de verificar antes de compartilhar.

Em 1945, Bingay pediu um “renascimento da consciência”.

Oitenta e um anos depois, diante de algoritmos capazes de escolher o que vemos e de Inteligências Artificiais capazes de fabricar aquilo que nunca aconteceu, talvez esse pedido seja ainda mais atual

Fontes e referências utilizadas

A análise apresentada neste artigo parte do texto “O Nazismo não tem fronteiras”, de Malcolm W. Bingay, publicado na edição brasileira de Seleções do Reader’s Digest, em dezembro de 1945, condensado do Detroit Free Press. Mais de oito décadas depois, a proposta do Meu Sebo é recuperar esse documento histórico e confrontar suas advertências com pesquisas, documentos e debates contemporâneos.

Para ampliar essa perspectiva, foram consultadas referências de instituições governamentais, museus, arquivos históricos, centros de pesquisa e organizações da sociedade civil dos Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Argentina e Brasil. Essas fontes permitem compreender tanto os mecanismos históricos da propaganda e da ascensão do nazismo quanto manifestações contemporâneas de extremismo, antissemitismo, intolerância, polarização e manipulação da informação.

O estudo também procura compreender uma transformação fundamental ocorrida entre 1945 e 2026. No tempo de Bingay, a propaganda dependia principalmente de jornais, rádio, cinema, cartazes, comícios e grandes estruturas de comunicação. Hoje, internet, redes sociais, smartphones, algoritmos e Inteligência Artificial permitem que informações — verdadeiras, falsas ou manipuladas — alcancem milhões de pessoas em poucos segundos e, em determinados ambientes digitais, sejam direcionadas a públicos cada vez mais específicos.

Ao aproximar passado e presente, porém, este artigo não pretende estabelecer equivalências automáticas entre o nazismo histórico e governos, partidos, movimentos ou divergências políticas contemporâneas. A comparação histórica é utilizada para examinar mecanismos e processos: propaganda, construção de inimigos, desumanização, intolerância, culto à personalidade, violência política, enfraquecimento institucional, normalização da mentira e obediência sem reflexão.

Da mesma forma, procuramos preservar uma distinção indispensável às sociedades democráticas: combater extremismo e manipulação deliberada não significa criminalizar opiniões, críticas ou divergências políticas. Liberdade de expressão, imprensa livre, oposição, pluralismo, eleições legítimas e o direito de questionar governos continuam sendo elementos fundamentais da democracia.

As referências contemporâneas também ajudam a investigar como algoritmos, conteúdo sintético, redes coordenadas e Inteligência Artificial estão modificando a circulação da informação. Nesse novo ambiente, tornam-se ainda mais importantes a educação histórica, o pensamento crítico, a verificação de informações, a transparência institucional e a capacidade de discordar sem transformar o adversário em inimigo.

A seguir, apresentamos algumas das principais fontes e referências utilizadas para contextualizar, confrontar e aprofundar historicamente os temas abordados neste artigo, mantendo o propósito central do Meu Sebo: preservar a memória do passado para compreender melhor os desafios do presente:

1. https://www.ebsco.com/research-starters/biography/malcolm-w-bingay?utm_source=chatgpt.com

2. https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/nazi-propaganda

3. https://encyclopedia.ushmm.org/content/en/article/nazi-propaganda-and-censorship

4. https://encyclopedia.ushmm.org/content/en/article/defining-the-enemy

5. https://encyclopedia.ushmm.org/content/en/article/nazi-propaganda

6. https://www.splcenter.org/presscenter/splc-releases-2024-year-hate-extremism-report/

7. https://www.ushmm.org/

8. https://www.gov.uk/government/publications/new-definition-of-extremism-2024/new-definition-of-extremism-2024

9. https://www.sgdsn.gouv.fr/publications/strategie-nationale-de-lutte-contre-les-manipulations-de-linformation-2026-2030

10. https://www.sgdsn.gouv.fr/viginum/publications/protection-du-debat-public-contre-les-ingerences-numeriques-etrangeres-durant

11. https://www.sgdsn.gouv.fr/viginum

12. https://www.report-antisemitism.de/

13. https://www.verfassungsschutz.de/DE/themen/rechtsextremismus/rechtsextremismus_node.html

14. https://daia.org.ar/2025/06/19/informe-anual-sobre-antisemitismo-en-la-argentina-preocupante-aumento-de-las-agresiones-fisicas/

15. https://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2026

16. https://new.safernet.org.br/

17. https://www.sgdsn.gouv.fr/viginum

18. https://www.verfassungsschutz.de/

19. https://daia.org.ar/informe-antisemitismo/

20. https://www.tse.jus.br/

21. https://new.safernet.org.br/

22. https://prorhetoric.com/in-the-back-of-the-old-garage-amazing-discoveries-in-the-vital-speeches-archives/?utm_source=chatgpt.co

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